O técnico
O prestador de serviço fora contratado para executar uma tarefa óbvia na sua profissão: instalar novos aparelhos de ar condicionado numa repartição pública. Serviço pago na empreitada, metade antes, metade depois, através de licitação.
Chega no primeiro dia: analisa, olha o projeto do arquiteto, marca as janelas a serem cortadas. Conversa com a secretária, dá explicações de modo a tornar seu serviço difícil e importante.
Segundo dia, mais ou menos uma semana depois: chega, traz um assistente, mas não as ferramentas, curiosamente. Abre a caixa de um dos aparelhos novinhos. Retira alguns papéis, algo tipo o manual ou o certificado de garantia. Analisa os escritos, sem necessariamente lê-los. Saem os dois e voltam meia hora depois com a sacolinha de lanche na mão. Vão lanchar, afinal não dá pra trabalhar de estômago vazio. Num momento de digestão, nosso instalador vai conversar com um funcionário, seu conhecido. Após um bate-papo relaxante, ajunta os papéis no saco plástico de onde saíram e os guarda de volta na grande caixa de papelão. Após tudo isso, despedem-se da secretária, do chefe e, é claro, do funcionário conhecido.
Terceiro dia, mais para o fim da mesma semana: trena na cintura, grande progresso! Abre a embalagem do equipamento, tira os sacos com a documentação e os isopores de proteção que estão por cima, mas não o ar condicionado em si. Mede os aparelhos lá dentro mesmo e vai para as janelas, onde derruba algumas persianas (ai, ai, ai, mais uma contratação!) para fazer o seu serviço. O incidente com as persianas rende novo papo com a secretária, cheio de justificativas e acusações sobre serviço anterior mal feito. Algumas tentativas de se encaixar peças caídas depois, esgota-se o expediente, afinal seu serviço é com o ar e não com o cortinado da sala.
Semana que vem ele volta e, ao que indica, irá terminar o serviço.
posted by deorótico at 11:19 AM