27.6.04

Meus tempos marginais

A mostra de cinema marginal que o Centro de Cultura Belo Horizonte está promovendo até quinta-feira, dia 1º, ressuscitou velhos nomes e grandes obras empoeiradas nas melhores cinematecas. No meu caso, tive o privilégio de assistir a um debate com Andrea Tonacci, seguido por uma sessão do seu longa mais significativo: Bang Bang.
Tonacci é um italiano radicado há um bom tempo em São Paulo. Em 1971, teve a genial idéia de fazer um filme em Belo Horizonte. A saga é uma perseguição policial, nos moldes de bangue-bangues antigos. A intenção era um fime para diversão do povão em geral, com baixo orçamento. O resultado foram seqüências longas e maravilhosas, personagens ricos e expressivos.
O ator principal, Paulo César Pereio, faz o cafajeste clássico, revelando o seu próprio lado macaco na história. Os três bandidos que partem em sua perseguição são um trio pra lá de excêntrico: um malandrão do tipo que bota banca, um cego, que, ao menor sinal suspeito, sai atirando pra todos os lados e uma mulher, ou um homem que se veste de mulher, assessorado (a) por sua bengala.

Foi bom não só rever essa preciosidade da sétima arte, como também relembrar os tempos em que eu saía a pé à procura de diversão gratuita. Sempre havia sessões de cinema, FIT e tudo mais naquela regiãozinha delimitada entre o Palácio das Artes e o Centro de Cultura ao lado do edifício Maletta. Não havia automóvel ou celular, com direito a esperar ônibus na Afonso Pena tarde da noite. Apenas aquele desejo, bem estudantil, de descobrir o novo, o que estava rolando. Sem contar as figurinhas carimbadas que estavam em todas também... verdadeiros guerreiros dos eventos culturais, vernissages e bocas-livres.




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21.6.04

Crônica de condomínio (III)

O velho problema da chave na fechadura: é hábito de muitas pessoas, principalmente das que moram sozinhas, deixar a chave na fechadura da porta do apartamento, até mesmo por uma questão de praticidade. Entretanto, com o advento das tetra-chaves, esse hábito pode ser um grande prejuízo na convivência dentro de um espaço tão restrito.
O fato: se você deixar a chave no orifício da tetra-chave por dentro, ninguém conseguirá fazer a mesma coisa por fora. Portanto, deixará os demais moradores "presos do lado fora" (adoro esta expressão, insubstituível) e estará sujeito a escutar a campainha de madrugada.
As famílias costumam instituir aqueles ganchinhos de pendurar os molhos das pessoas. Alguns até vêm acompanhados de um quadrinho sempre com as mesmas flores, às vezes mudando de cor. Vale qualquer solução, desde que não cerceie o direito do outro de ir e vir no próprio apartamento.
Em tempo: não é apenas a tetra-chave que causa tal incômodo e conseqüente atrito. Nas fechaduras comuns, a chave na porta pelo lado de dentro também pode travar o mecanismo. Deste modo, o "preso fora do próprio apartamento" poderá até inserir a chave, mas não conseguirá girá-la nas famosas duas voltas.




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19.6.04

A ostra e o vento



Data especial, parabéns para Chico Buarque comemorando hoje seus 60 anos. Seu nome já se transformou numa instituição nacional, dada a sua contribuição para as mais variadas artes, com destaque para a música. Os poucos críticos que existem ao seu trabalho, têm sua fundamentação na pouca produção recente do artista.
Não estou aqui para falar da sua obra, do que é muito bom e de sua importância. Quero é mesmo falar sobre o Chico sexagenário. Ele continua brilhante como sempre. Seu livro, Budapeste, é sucesso de crítica e de público. Seus discos recentes como As Cidades e Chico ao vivo (o duplo) são geniais.
Duas músicas dessa sua fase mais recente me tocaram muito: Injuriado e A Ostra e o Vento, trilha do filme homônimo. Esta, genialmente cantada ao ritmo do sopro do vento. Lembro-me de um momento especial, de sair do cinema depois da sessão lotada do referido filme, numa dessas mostras que trazem filmes recentes. Na película, junto aos créditos, a música do Chico era cantada por uma mulher de voz muito doce (se alguém souber quem é, por favor me avise). Os espectadores saíram da sala cantando com a projeção. Já na rua, quarteirão adiante, escutava-se a suave melodia. Até hoje, quando cruzo no canteiro central desses corredores movimentados de BH, ou qualquer outro vento forte me bate no ouvido, escuto claramente a flauta que acompanha a sussurrada melodia.




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15.6.04

Angústia e sufoco

A sensação de angústia, de vazio, de esperar a morte chegar é forte quando se vê Do outro lado da rua. Fernanda Motenegro (linda e elegantíssima) faz o papel de uma velha (sim, velha é a palavra exata) que não se aceita como tal. Ao mesmo tempo em que critica aqueles que jogam damas, dominó ou ficam bordando para ocupar ócio constante de um aposentado, esquece que é mais um deles.
No entanto, o que mais me impressionou no filme não foi o seu enredo, mas sim o sufoco que a ambientação passa. Fiquei com impressão de estar dentro de um apartamento o filme todo. Mesmo cheio de externas e passeios no calçadão de Copacabana, senti-me naquela prisão de janelas e paredes que não separam nem os bisbilhoteiros do dia-a-dia.




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11.6.04

Os cinco MP3 mais tocados essa semana no meu PC

Seguindo a linha top 5 de Alta Fidelidade, resolvi dar minha contribuição, já que eu ouvi falar sobre a expressão "MP3" ser uma das mais procuradas na internet, chegando a superar "sexo".

1 - Tim Maia - I don´t know what to do with myself
2 - Chico Buarque - A ostra e o vento
3 - Dom Salvador e Abolição - Uma vida
4 - Regina Sposito - Pra ela passar
5 - Moloko & Portshead - Fun for me




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10.6.04

Perguntas impertinentes

Certa vez, meu colega Dimas pregou no quadro de avisos da empresa todas as respostas para aquelas questões rotineiras na vida de uma grávida (no caso, a Marisa).
Sempre se ouve: "está de quantos meses?" "é menino ou menina?" "como vai se chamar?"
E depois que nasce? "nasceu com quantos quilos?" "normal ou cesariana?" e por aí vai...

Estas perguntas pautam violentamente a vida das pessoas, como se todo mundo tivesse que seguir as mesmas rotinas para nascer, crescer, se reproduzir e morrer. Perigoso é se deixar levar por elas. Por que dar informação tão precisa das coisas? Não sei nem se estarei vivo daqui a quarenta minutos.
Aos namorados: "quanto tempo de namoro?" "quando vão se casar?"
Ao estudante: "o que você quer fazer?" "qual o seu curso?"
Aos casados: "quando vocês vão ter filhos?"
Aos que têm filho: "quando vem o segundo?"
Ao recém-formado: "o que você está fazendo?" "você está trabalhando na área?"
Aos solteiros: "quando você vai arrumar uma namorada?"
Aos que têm um emprego estável: "quando vai se aposentar?"

Muitas das indagações surgem da própria falta de assunto. Não quero responder e não sei resposta para nenhuma delas. Sem cobrança por parte dos outros. Depois que se responde a mesma coisa para todas aquelas pessoas ou ex-colegas que você encontra de vez em quando, a repetição se torna uma chateação e até mesmo uma tortura na vida de alguns.

Viver o dia de hoje sem maiores riscos. Responder a si mesmo é, antes de tudo, mais importante que dar satisfação sobre qualquer coisa.



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7.6.04

Orgulho besta e provinciano

Ontem voltei ao Cartola Bar, no Caiçara, depois de um ano e meio sem aparecer por lá. Para quem não conhece, o Cartola era aquele botequim copo sujo que apresentava músicos tarimbados com o melhor do choro, samba, bolero e aquelas outras músicas das antigas. Freqüentei lá aos domingos por pouco mais de ano até o lugar ser invadido por mudernos, típicos estudantes da FaFiCH. Comecei a ser tomado por ódio e também ciúme daquele povo que descobriu "o nosso cartola". Antes do negócio se tornar febre no meio neotropicalista, decidi abandonar o referido botequim e decretá-lo como perdido.
Depois da noite de ontem, revi minhas posturas radicais e ainda acabei gostando do ambiente. Muita coisa mudou por lá depois desse mais de um ano, algumas para melhor. Para quem conhecia o velho Cartola, o novo fica na mesma rua Vila Rica, dois quarteirões abaixo do antigo.
Os músicos continuam os mesmos, principalmente aquele cara de bigode (virou cavanhaque) branco que manda muito bem no violão, mesmo tomando todas. Senti falta da Solange, dona do bar, cantando. Alías, o som foi quase que exclusivamente chorinho, e ainda cobram um couvert de R$3,50, parte desegradável da mudança.
A cerveja está mais ou menos a mesma coisa... muitos garçons e funionários servindo.
O público também se diversificou bastante, incluindo a juventude do bairro e os adultos de outros cantos da cidade, com direito a tomador de conta na porta do bar.

Definitivamente, não tenho razão para não querer que crescessem... não será mais o velho Cartola sujão, mas certamente continuará como mais uma referência da boa e velha música no Caiçara.




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6.6.04

Bem, dia quebradeira! Compromissos sociais desde cedo no Mercado Central, passando pelo Xico do Churrasco e terminando a noite no Movimento Balanço, que eu não ia há quase um ano. As músicas continuam boas, mas eu ficava com a constante sensação de que algum dos caras que lá estavam iria me dar porrada a qualquer momento.
Paranóias à parte, foi bom curtir aquelas músicas das antigas que só tocam lá. Estou acabando de baixar da internet "I don´t know what to do with myself" com o Tim Maia. Ótima pedida para um domingo frio e solitário.




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4.6.04

Recebi essa por e-mail, propícia por ser sexta-feira. Publicada para esquecer que faz frio.







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3.6.04
Momento único

Assistir ao jogo Brasil x Argentina no Mineirão foi, de fato, um privilégio de pouco mais de 30 mil pessoas. Não importa o quanto falem dos pênaltis, de armações e tudo mais. Há um bom tempo não importo com teorias da conspiração. O prazer e a diversão devem estar acima de qualquer especulação.
Vale destacar alguns detalhes que tornaram o momento ímpar:

A quantidade de gente bonita: milhares de gatinhas, em vez dos marginais fedorentos e mal vestidos que normalmente encontramos em torno do estádio.

Cerveja gelada e tropeiro quentinho: "proibição de venda de bebidas alcoólicas"... tudo balela!

Cantar o hino nacional junto com toda a arquibancada lotada: emociona até os menos bobos e nacionalistas.

Ver a agilidade de Ronaldo: o fenômeno (gordo) é genial em campo.

O espetáculo do futebol: cada vez mais vejo que o Mineirão é o templo sagrado e nada supera o esporte.




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não linear