31.10.04

É compreensível

Apesar de todo o frio, já é dia às cinco da manhã. Tudo bem, eles têm razão em fazer o horário de verão. Pelo menos, a esta época do ano, ninguém vai reclamar de acordar ainda à noite.




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27.10.04

Alô, frouxos

Se tem medo de cagar, não coma.




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25.10.04

Que cidade linda

Sempre achei o natal uma época muito deprê. Aquela mesma tortura de consumo, festas e panetones que eu odeio. Pessoas que trabalham no centro assim como eu sofrem em dobro: o tumulto e os assaltantes.
Hoje recebi o meu primeiro golpe natalino. Nas minhas andanças de 2004 Bandeirantes afora, vejo uma daquelas lindas casas adornada com as típicas lâmpadas que acrescentam brilhos às árvores e tudo mais que estiver à mostra. Sim, pasmem, ainda estamos em outubro, o horário de verão nem chegou para economizar a luz que será gasta nas árvores de natal e já tem gente empolgadíssima por aí.

Tudo bem... que venham as músicas chatas, as famílias chatas das pessoas, os produtos e propagandas caros dos shoppings, as mensagens da rede globo (incluindo o show de Roberto Carlos). Eu só queria um pouco de paz e o direito de trabalhar como em qualquer outra época.

Vai sonhando... temos vagas para temporários. Alguém se habilita?




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21.10.04

Carência e afetividade

É curioso ver que existem pessoas que se cadastram na internet em serviços para buscas de parceiros/ companheiros. Não estou me referindo a pessoas que se conhecem pela rede, apaixonam-se e se casam. Este tipo de relacionamento cada vez mais comum é perfeitamente normal, ocorrendo apenas a substituiçao do espaço convencional pelo virtual.

Quero dizer a respeito de gente que paga, às vezes até caro, para se alistar num rol virtual de disponíveis. Algo como uma agência de matrimônios. Aí vale de tudo: desde a menina carente, o véio gordo e o gringo tarado. Todos não passam de filhotes de nossa sociedade de consumo. Pensa-se que se pode comprar a felicidade, o amor, o carinho e o respeito como um serviço qualquer. Não é um vidraceiro, eletricista ou personal trainer que você contrata em classificados de jornal.

Tudo isso tem seu lado triste, mas ao mesmo tempo patético. Triste porque essas pessoas são carentes, frustradas, consumistas e dificilmente serão felizes. Patético porque esses cidadãos estão cada vez mais diversificados. Recentemente descobri num jornal que agora existe o correio sentimental (uma espécie de "avô" dos sites de relacionamento) na versão evangélica.

Para quem não acredita, o serviço se encontra disponível desde semana passada na Folha Universal, semanário impresso da igreja do bispo Macedo. Alguns dos mais curiosos, fielmente transcritos:

HOMEM EVANGÉLICO Tenho 52 anos, mas não aparento, cabelos e olhos castanhos, 1,60m, 66 Kg, sem filhos, carinhosa e romântica. Quero encontrar um homem evangélico, sem filhos, até 65 anos, para compromisso sério. Maria Dalva - Espinheiros/ Joinville/ SC

ROMÂNTICO SOLITÁRIO Desejo me corresponder com mulheres de Deus, de todo o Brasil, que queiram compromisso sério. Sou evangélico, branco, cabelos e olhos castanhos, tenho 35 anos, 1,64m, 72 Kg, de boa aparência. Peço foto e telefone. Elcio do Espirito Santo - Iepe/ SP

AMOR ESPECIAL Tenho 48 anos, loira, cabelos lisos, bonita, evangélica, 65 Kg e quero compromisso sério. Procuro um homem de Deus, que seja militar, convertido, de 45 a 55 anos. Peço foto e telefone. Eliete Teresa - K 11/ Nova Iguaçu/ RJ




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15.10.04

A janela da alma



Talvez a sensibilidade que Walter Carvalho e João Jardim tiveram ao fazer o documentário "Janela da Alma" sobre os mais diversos graus de deficiência visual só seja percebida nos mais pequenos detalhes. Dizem que foi de um encontro na praia que saiu a idéia do roteiro. Não sei bem quem viu e quem foi visto. O fato é que um deles achou curioso o outro mergulhar no mar de óculos e tudo mais.

Fato é que, apesar do meu pequeno grau de miopia, essa semana tive a oportunidade de sentir o mundo com outras intensidades. A perda das minhas lentes de contato levou-me a andar a pé, sem a menor condição de dirigir. A observar tudo de perto e mais atentamente. Placas e anúncios só ganham qualquer sentido quando bem próximas. Pessoas não são percebidas e me acham mal-educado. Outras se divertem sabendo do fato.

Talvez o mais bizarro foi assistir ao show do Charlie Brown Jr. apenas ouvindo e observando os demais à minha volta. O máximo que eu percebia era uma ou outra figura humana indistinta se movendo sobre o palco. Nada mais além de ouvir o rock'n'roll e uma ou outra brincadeira como a campainha do Chorão.

Sempre que me perguntam se eu não faço a tal cirurgia, digo que não gostaria porque dessa forma tenho a opção de enxergar o mundo de duas maneiras. Sim, eu posso ver tudo desfocado, apenas alguns palmos à minha frente. Ninguém do outro lado da rua, ninguém além de alguns metros de percepção. A companhia dos outros e a confiança neles pode ser bem mais forte que certas paisagens.




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11.10.04

Para gostar de ler

Tenho comemorado, nesta última semana, minha evolução literária. Um estudo desses que são encomendados pelo MEC revelou há uns cinco anos que os universitários brasileiros lêem, em média, menos de um livro por ano. Durante o período em que esquentei os bancos da universidade, servi como prova viva para engrossar essa triste estatística. O elo que eu tinha com a literatura na infância foi enterrado não sei onde.
Eis que retomo agora clássicos e pops. Mais ainda: tenho sentido prazer em ler. Em menos de uma semana devorei mais de metade do "Clube dos Corações Solitários", do André Takeda. Isso parece pouco, mas para quem tem levado anos a fio de vida iletrada, pode-se até dar os parabéns.



Bem, não estou aqui exatamente para dar conselhos literários, mas para lamentar uma perda que sabia mesclar na medida perfeita a crônica e o estilo, o literário e o factual: Fernando Sabino se foi hoje, às 13h, deixando-nos uma obra sem igual.
Comecei conhecendo o autor de "O grande Mentecapto" numa coleção famosa nos corredores de colégio, chamada "Para gostar de ler." Os dois primeiros volumes continham crônicas de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Fernando Sabino. A morte de Drummond em 1987 me deixou bastante impressionado. Os demais se foram pouco a pouco, não restando, a partir de hoje, nenhum deles mais entre nós. De qualquer forma, sua crônica permanece servindo de referência para qualquer atrevidinho que acha que sabe escrever em jornal, blog, folhetim ou qualquer outra experiência possível.




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5.10.04

Crônica de Amazonas

Dessas que só acontecem comigo.
Caminhava ainda há pouco tranqüilo e vagarosamente pelas imediações da avenida que liga o centro de BH à zona oeste, quando sou abordado por duas moças. A de aparência razoável me pergunta:
- Ou, onde que é a boate Star Girls?
- Stop Girls você quis dizer, não? - retruco prestativo.
- Não tô te falando, nem sabe o nome... - bate no ombro dela a de aparência denegrida.
- Fica logo aqui, a entrada é este toldo iluminado.
- Ou, sabe que eu fiquei a fim de te conhecer?
- Oi?
- Estou a fim de te conhecer.
- Pois bem, estou aqui.
- Prazer, meu nome é... (três beijinhos).
- Qual o seu nome?
- Linder.

Será que ela não tinha um nome melhor para arrumar?
- Prazer, meu nome é cicrana - ganhei três beijinhos da feiosa, que ainda tem hálito de cerveja.
- Bem, o lugar é aqui.
- Ah! Você já veio aí?
- Quando era de graça eu vinha, depois que começaram a cobrar para entrar parei.
- Deixo te contar, você conhece o dono?
- Não.
- Só mais uma coisa: aqui é Amazonas, não é?

(Aham, amo zonas).




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4.10.04

Vai uma lavadinha aí?

Depois de meses sem ver uma gota de chuva, BH novamente voltou a ter seu solo molhado, ainda que pouco. A sensação de caminhar pela rua de manhã após uma noite de chuva é extremamente aliviante. É um misto de tranqüilidade com faxina. Parece que mandaram lavar a rua para as pessoas passarem logo cedo, mesmo que haja toda uma variedade de sujeira trazida pela enxurrada. Apesar do meu cabelo não gostar muito de chuva, é uma das melhores sensações que eu conheço: tanto de andar na chuva, quanto de dormir ouvindo o seu barulho. E que venham todas as segundas de manhã, com toda a sua indisposição, a rua lavada e algumas poças para lembrar que nem tudo é tão limpo assim.




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1.10.04

Sessão das dez

Não pude deixar de reportar, a fumaça ainda alcança minha janela. O primeiro incêndio que acompanho ao vivo. Praça Raul Soares, Cine Candelária. Pessoas de roupão e em certo estado de desespero acompanham o trabalho dos bombeiros. Exatamente as mesmas cenas a que eu sempre assisti em filmes e telejornais.
O mais chocante foi ver parte do prédio pertencente ao cinema abandonado desabar. Em certo tempo várias portas e janelinhas pegando fogo. Pouco depois, já não resta mais nada daquela parte da alvenaria.

Mais um cinema, ou o que sobrou dele, que se vai. Espaços de grande referência arquitetônica que a cidade vai perdendo aos poucos, livrando-se de um passado que nem passado mais é.

Incêndio criminoso? Quem vai dizer?




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não linear