30.12.04

Meu caminho de quinta-feira à noite

Há uns quatro ou cinco anos, o caminho tinha um nome certo: Avenida Augusto de Lima. Eu começava minha caminhada mais ou menos dez horas da noite no Barro Preto, na altura da sede do Cruzeiro, e seguia a avenida até fim, parando no Prado, famosa pracinha do ponto final do circular 01.

Mais ou menos num horário como este, eu apenas aguardava a ligação de meu amigo Fábio e combinava: "vamos lá agora então?" Não precisava escolher o lugar, isso já era certeza.
O destino: uma casa transformada em bar, que atendia pelo nome de Sambatório Geral. Lugar ímpar, famoso por suas histórias bem, mas bem peculiares mesmo. Tinha a fama de ser o único bar de BH onde a fila do banheiro dos homens era maior que a do das mulheres. Não por ser mais freqüentado em sua maioria por machos, mas por ter uma única casinha e a cerveja a um real.
Logo na entrada (a cinco reais), mulheres loucas, com seus cabelos enrolados e suas roupas brilhantes, algo indefinido entre odalisca, cigana ou hippie. Sobre o balcão do bar elas dançavam desde o mais tradicional samba de raiz até rock dor-de-cotovelo de Raul Seixas.
Nos fundos, um quintal disputadíssimo, lugar da pegação sem frescura.

Noite imperdível rolava todo ano na quinta-feira que antecedia o carnaval: o já famoso Sambatório era tomado por marchinhas de carnaval, confete e serpentina. Suas funcionárias loucas mais fantasiadas que nunca. Houve época em que pessoas, principalmente da região do Prado e adjacências, iam à porta só para acompanhar o tumulto ou jogar uma sinuca no bar ao lado, sem nem mesmo adentrar o recinto.

Como tudo o que é bom tem o seu esperado fim, após o falecimento do Sambátorio, eu, Fábio e tantos outros órfãos tentamos de alguma forma recompor a nossa quinta à noite, mas sem alternativas de sucesso. Pastel de Angu, Cervejaria Official, o bar de boy doidão que abriu no mesmo lugar e até mesmo o novo Sambatório do Carlos Prates não preencheram o vazio deixado por aquela casinha com porteira que tocava samba, muito samba.




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28.12.04

Manhã perversa

Acordar com uma ligeira ressaca e querendo dormir mais é normal.
Agora, acordar com uma ligeira ressaca, querendo dormir mais e com o rádio tocando Bon Jovi é castigo!




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23.12.04

O preconceito existe sim

Sempre gostei de iniciativas que mesclassem linguagens ou simplesmente subvertessem padrões existentes. Uma das mais belas e bem sucedidas que já vi nesse sentido é o excelente filme Ensaio de Orquestra, de Frederico Fellini.

Trata-se de um verdadeiro documentário, mas filmado com roteiro de ficção. Aliás, a única coisa que possui de ficção é o roteiro e os atores. Pára por aí.
O fio condutor é um jornalista que vai fazer uma matéria e procura entrevistar cada um dos músicos de uma orquestra. No decorrer das falas, cada um procura exaltar o próprio instrumento e por que é o mais importante da orquestra.
Na verdade, o repórter apenas pergunta por que a pessoa gosta do respectivo instrumento e algumas de suas características. Nesse meio encontramos a flautista louca, a pianista atacada, o violinista vaidoso e toda uma sorte de pessoas que rapidamente nos remetem à fogueira de vaidades e talentos existentes à nossa volta no dia-a-dia.

Por fim, ficam tão cheios de si, que começam a execrar o maestro, grande mestre e regente de suas vidas. Rebelam-se e ameaçam substituí-lo pelo metrônomo, um simples aparelho. O desenrolar e posterior desfecho da história é tão surpreendente que você não consegue imaginar como o diretor foi tão genial e conseguiu fazer uma hora e meia de história cheia de conteúdo numa simples igreja abandonada que servia para um ensaio de orquestra qualquer.

Na vida real também é assim: alguns se acham mais importantes porque tocam um violino. Não aceitam que o tocador de triângulos ou o de pratos sejam tão músicos quanto eles. Só porque um piano é maior, não quer dizer que toda uma turma seja menor. Sem contar que só porque aprenderam e dominaram o seu instrumento, não quer dizer que o papel do regente deva ser desprezado. Se uma obra foi composta para ser tocada em conjunto, a falta de qualquer componente pode acabar com a harmonia.




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21.12.04

Saudações à chegada do verão

Vai começar a chover
Só eu tenho um guarda-chuva, adivinha quem vai se molhar?
Quem vai se molhar é você...

(Jorge Ben Jor)

Não havia jeito melhor de começar o primeiro dia de verão: completamente chuvoso e embaçado! O verão, como estação das chuvas breves e numerosas, começou em alto estilo. A chuva me causa uma alegria especial, do tipo descrito na música do Garbage "I´m only happy when it ranis". Nada contra os dias de céu limpo e radiante, mas também gosto de água caindo, pessoas andando na rua com guarda-chuvas. O único inconveniente são os carros dando banho de enxurrada, mas, fora isto, as pessoas ficam muito mais elegantes com seus guarda-chuvas abertos ou fechados. Para completar o estilo só faltam a capa e o chapéu. Ninguém à toa na rua pela manhã, só mesmo quem tem obrigações e precisa sair de casa.




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20.12.04

Meu amigo Valentin



Pois bem, o meu amigo Valentim é realmente brilhante, tem uma sensibilidade acima do normal, mas as pessoas à sua volta não percebem isso.
Ele só queria ter uma mãe, mas se for gorda não serve.
Também se preocupa com sua avó, e tenta cuidar dela.
Valentin investe seriamente em sua carreira de astronauta, e acha que pode competir com Yuri Gagarin.
Valoriza a amizade e as pessoas verdadeiras, sendo que ainda não se acostumou com as pessoas mentindo.
Sabe que seu pai é ausente, mas respeita a sua figura até o fim. Talvez quisesse apenas dar um beijo em sua mãe e aproveitá-la para outras coisas.
Quem quiser conhecer o meu amigo Valentin, pode encontrá-lo às 19h30 no Savassi Cineclube.






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19.12.04

O outro

Desta vez acabo de voltar do "Entreato" de João Moreira Salles. Novamente fui vítima da presença dos intelectuais que transformam uma sessão em evento social. Tudo bem, apenas me resta aceitar o fato. Aliás, no início a ida ao cinema era o acontecimento, inclusive em cidades do interior. Vou encarar isso como uma volta às origens, e quem sabe, de quebra, eu não absorvo um pouco da intelectualidade que paira no ar?

O fato é que esse é o filme gêmeo do de ontem ("Peões"). Um não é seqüência do outro. Tampouco dependem um do outro. Apenas são dois filmes lançados simultaneamente dando visões diferentes sobre o mesmo assunto. Sensacional como a espontaneidade dos bastidores da campanha presidencial de 2004 é captada. Destaque para o diálogo engraçados envolvendo José de Alencar, Pallocci e Lula no jato:



Pallocci (dirigindo-se a Lula) - Isso aqui é para você tomar dois durante ao dia. Este outro é para você colocar no nariz.
Alencar - Eu também quero isso aí.
Pallocci - Você também tem rinite?
Alencar - Tenho... o que é isso?
Pallocci - É uma alergia respiratória.
Alencar (dirigindo-se ao assessor) - Anote este pra mim, que eu também quero.

Fora o cara anônimo que cumprimentou Lula como fã e falou que dar um abraço nele era a única coisa que salvaria seu dia que estava perdido.
Lula - Por que está perdido?
Alfeu (esse era o nome do fã) - Porque acabei de perder o vôo para Porto Alegre.
Lula - Tudo bem, porque você não pega uma carona com a gente?
Pronto, foi a conta de todos no avião acharem que era um chegado íntimo do Lula, o tal cara misterioso.




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18.12.04

Você já foi peão?



Acabei de ver o excelente "Peões" de Eduardo Coutinho. A espontaneidade e o diálogo amplo, marcas registradas do documentarista, permanecem fortes nessa sua mais recente obra. O filme procura retratar alguns dos demais metalúrgicos do ABC, contemporâneos do Lula sindicalista que permaneceram anônimos até os dias de hoje. O mais interessante é a tênue separação entre esses ex-sindicalistas e todos os que hoje são deputados, políticos de renome e secretários de estado. Cada dia mais vejo esse meu lado "peão", de ficar no anonimato, de trabalhar apenas. Não gosto de contatos, fontes ou influências. O meu negócio sou eu e o que me interessa, seja trabalhando, fazendo política ou tocando projetos pessoais. Logo na saída do cinema percebi que as pessoas não foram lá para apreciar o documentário do Coutinho e sim para se ver, se cumprimentar e, o mais importante para eles, ver quem também estava lá. Definitivamente não me encaixo nesse mundinho. Minha vida social sou eu e meus amigos, sem me importar em ver e ser visto.




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13.12.04

Declaração de amor

Tá, eu sei que toda declaração de amor soa brega. No entanto tenho que falar sobre a grande relação afetiva que tenho com BH, cidade que anteontem completou 107 anos e há oito me acolheu. É aqui que eu gosto de viver, vou admitir. Assim como tantos outros nascidos no interior, tornei-me um belorizontino adotado. É a BH que eu gosto: do colégio Santo Agostinho, da UFMG, da Savassi, de Santa Tereza, do Cruzeiro, do Mineirão, do usinabelasarteshumbertomauro, d"A hora vagabunda", do FIT, do Centro, do Palácio das Artes, do Café Nice, da Galeria do Ouvidor, do Café Palhares, da agência Tupinambás, da rádio Favela, da Galeria Praça Sete (do rock), do Brasil 41, da Feira Modelo, dA Obra, do Matriz, do parque das Mangabeiras, da Serra do Curral.




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8.12.04

Crônicas de condomínio (V)

Os secretários da vida privada. Sim, assim considero os cidadãos que trabalham como porteiros de condomínio. A palavra secretário significa "aquele que guarda o segredo". Bem, não sei se significa exatamente isso, mas é a idéia que me passa. O que acontece é que eles sabem de tudo sobre todos, por menos bisbilhoteiros e fofoqueiros que sejam. A sua função naturalmente os faz assimilar horários, rotinas, companhias, famílias e demais fatos da vida dos condôminos que passam pela portaria do prédio. Conhecem carros, amantes, entregadores, freqüentadores, visitas fixas, preferências, trabalhos, encomendas e tudo mais que faz parte do dia-a-dia dos moradores. A mais simples quebra de sigilo por parte desses trabalhadores (que às vezes acontece) pode ocasionar grande caos e tragédia na vidinha comum de cada um.




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5.12.04

ôquerovêogalosefudê!!!




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4.12.04

O grande mestre me derrotou mais uma vez

Esta foi, definitivamente, a semana que passou mais rápido em toda a minha vida. Eu tinha algo a ser feito semana passada? Nem dá para saber, já se foi...
Dizem que o tempo passa cada vez mais rápido, e, se ele for tomado como mestre, fica a lição de que nunca devemos desprezar a sua companhia. Faça tudo o que tem que ser feito, senão fica apenas o final de semana para se esquecer dos outros dias que parecem não ter existido.




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não linear