Quero alguém que me leve para a cidade do Funky
Tudo aconteceu num simples churrasco de fim de ano. Meus planos: ir e voltar cedo, pois tinha um compromisso (e profissional) marcado para a tarde. Bom, eu mal sabia que, depois daquele dia que se estendeu até a noite, minha vida nunca mais seria a mesma.
Logo pela manhã, chego para pegar a van até o sítio e percebo que não conheço ninguém, exatamente nenhuma pessoa que vai à festa. Viagem muito longa. Será que eu voltaria a tempo? "Qualquer pressa era só pegar carona com alguém que voltasse mais cedo", pensei, assim me garantindo.
Chegando lá, só com muita cerveja para ouvir o cantor de churrasco que brigava com um desajeitado violão. Todas essas cervejas depois, acabei conhecendo pessoas, num ambiente onde até então eu era um ilustre anônimo, com direito a todas as formais apresentações.
Empolgação, alegria e tudo mais rodando... não me lembro de mais nada. Apenas que acordo numa cama desconhecida com aquela nítida dúvida no melhor estilo: onde estou? Disseram que eu havia dormido na cama da dona do sítio. Depois que me localizei, a dúvida maior era encontrar os demais: onde estão todos? "Bem que tentaram te acordar, a van já foi embora, mas alguém ainda pode dar carona." - foi a informação recebida.
Pelo menos ainda havia uma mocinha com quem troquei telefones, uns beijinhos e nunca saí para tomar o sorvete que nós combinamos para qualquer dia desses...
Um ilustre negro desconhecido oferece carona para sair daquele fim de mundo, e eu não queria largar de beber! Ainda nos fez esperar no carro, enquanto foi ao bairro Ouro Preto para a casa de uma namorada. E eu queria mais... o fogo no rabo era muito. Detalhe: o céu desabava, chovia copiosamente... qualquer pessoa sensata iria para casa se esconder de uma possível inundação. O meu salvador até passou em frente ao meu prédio, mas eu queria sair, porque tinha que sair.
- Pode me deixar n
A Obra! - foi a minha ordem, como se eu estivesse no direito de mandar alguma coisa.
Fui conduzido até a praça da Liberdade e abandonado sob o temporal, com a alegação puta de que ele queria ir para casa. Corri encondendo-me sob marquises até chegar à Obra. Lá rolava a festa Disco Inferno, anos 70. Só a música mesmo, porque gente quase não havia lá. Tomo cervejas e converso com o Tião do bar sobre como estava vazio (óbvio, se alguém saísse de casa morreria afogado).
Toca Funkytown, do Lipps Inc., e eu encontro a morena mais linda da noite, típica belorizontina. Seu nome: Soraia. Eu, bêbado e sozinho, jogo o papo mais errado na garota e ela dá confiança. Chamo a garota para ir ao Mineirão no dia seguinte (véspera de Cruzeiro campeão brasileiro, contra o Paissandu), e ainda arremato cantando a musiquinha cretina que levava seu nome:
Quem está batendo na portinha do seu coração?
Quem está batendo na portinha do seu coração?
Soraia
Abra a janela querida!
A noite está tão linda!
A gente ama você...
A minha vida bêbada teria início naquela noite que havia sido dia em algum momento. Por volta de pouco mais de um ano depois, terminaria do mesmo jeito que começou: sem eu menos perceber.
posted by deorótico at 12:21 PM