30.5.05

É no lusco-fusco (Crônicas da Vida)

Curioso que, depois de tantos anos de ambientação, algo me faz ter aquela sensação de andar pela cidade e ver tudo com o olhar de alguém de fora. De repente, no meio daquilo que é tão comum e corrido, meu passo fica mais lento, como se eu andasse perdido e não quisesse que ninguém descobrisse isso. É aquele desejo de achar o destino, sem parar e pedir informação para ninguém, porque, de certa forma, estou vulnerável.

Hoje esse sentimento bateu fortemente em dois momentos: sensações que me lembraram de BH quando eu não era daqui. Quase seis horas da tarde, peço um lanche no Café Nice: misto quente e café com leite. O paladar daquele café com leite no copo que parece um lagoinha compridão, com aquela colherinha de cabo longo, remeteu-me exatamente às vindas à BH da minha infância, quando passava o dia todo aqui com meus pais e retornava logo à noite para o interior. Esse dia inteiro aqui dava direito a um lanche, pelo menos um desses pães de queijo graúdos que ficam nessas vitrines-estufas à beira da calçada. Não exatamente no Nice, mas numa dessas lanchonetes do Centro que são todas parecidas (ah! Pastel, pastel...).

Logo depois, dirigi-me para o lançamento de um curta-metragem no Cine Humberto Mauro. Dessa vez, a lembrança veio de outra forma. Caminhando pela Afonso Pena, fiz igual aos tempos em que um programa desse tipo era uma rotina quase diária. Se hoje aconteceu pelo fato de ser uma ocasião especial, há alguns anos, época em que eu estava me tornando belorizontino sem perceber, isso era uma deliciosa constante. Simplesmente aquela vida de quem queria aproveitar o máximo da cidade e levou um pouco de tudo isso consigo.

Tudo isso coberto por uma leve e mansa chuva que deixou a rua mais irreconhecível e meu passo mais observador e, talvez, perdido.




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29.5.05

Apresentações únicas em BH

Certamente há muitos shows, apresentações e filmes na cidade que são bons e compensam a presença em um deles. Contudo, houve dois que foram ímpares por um simples fato: faziam parte da programação de festivais internacionais que têm a cara da cidade. Seu caráter excepcional se deve ao fato de que tão cedo não vai surgir nada parecido, haja vista que ambos retornaram aos respectivos países de origem depois de um breve passeio em BH.

Primeiramente, em 2002, no então chamado Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte. O filme: Left-Right. Não era necessariamente um curta, mas um média-metragem norte-americano, formato que conta com poucas opções e espaços para exibição. Outra singularidade do filme é o suporte em 16mm, que não é exibido em qualquer sala também. A história era sobre um sujeito que ouve a notícia de uma pesquisa que revelava que os canhotos viviam menos que os destros. A partir desse momento, ele toma a atitude de se tornar canhoto, a fim de morrer mais rápido.
Grande questão: se ele queria morrer, por que não se matava logo? É para justificar essa dúvida que se desenrolam os aproximados 60 minutos de filme, mostrando sempre aquele sujeito triste, feio e pateticamente com o braço direito grudado ao corpo para que não fosse utilizado. Aquela ambientação escura, descolorida, mostrando a rotina do cara em seu trabalho medíocre e sua casa decadente, fazia que esse filme merecesse ser visto por muito mais pessoas.

Outra apresentação do tipo "quem não viu, perdeu" foi no FIT-BH 2004. O espetáculo El Automovil Gris trouxe uma mistura inédita de teatro e cinema que não se acha por aí. Consistia em resgatar uma tradição japonesa chamada de benshi, em que os filmes mudos eram narrados ao vivo. Tudo começou com um sujeito que ficava explicando o processo de funcionamento do cinematógrafo e fez tanto sucesso que sua presença se tornou obrigatória nas sessões japonesas do início do século passado. Na tela armada no palco do teatro era projetado um filme mudo mexicano também chamado El Automovil Gris, enquanto os atores dublavam em japonês, espanhol, português e portunhol. Tudo isso intercalado com momentos de dança e música. O resultado era algo extremamente inédito e divertido, que supera as barreiras mais convencionais do teatro.




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26.5.05

Posso mudar de vida completamente



Se a PJ Harvey quisesse, eu me casaria com ela agora.




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23.5.05

Leitura

- Mamãe, o cavalo é um bicho muito educado. - disse Mariana, filha do arquiteto Bolonha, à sua mãe.
- Por que, minha filha? - pergunta a mãe.
- Porque mastiga de boca fechada.




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21.5.05

En Cinemascope et Eastmancolor

Interessante a minha paixão por cinema. Não entendo muito de filmes, não conheço todos os clássicos, sou defasado em relação aos lançamentos e é normal eu não reconhecer os atores e diretores nem pelo nome, nem pela cara.

No entanto, se for desconsiderada a minha relativa ignorância fílmica, sou capaz de trocar os mais diversos programas e passeios por aqueles momentos de completo isolamento em relação ao mundo. Tempo de assistir a imagens projetadas à minha frente e me envolver completamente com elas. Sem contar que tudo isso ainda faz parte de uma experiência escura e coletiva, que leva a momentos de completo silêncio no meio de muitos e também a rir, quando não se acharia tanta graça em algo, se estivesse sozinho.

Percebi essa forte atração essa semana, quando peguei aquelas duas horas do dia, as únicas que tenho só para mim, para fazer o que quiser: lanchar, ler jornal, andar à toa, encontrar alguém... enfim um breve espaço de tempo que, às vezes, costuma existir entre o trabalho e a aula. Tinha as duas horas pela frente, mas o que quis fazer? Correr para pegar uma sessão (gratuita ainda por cima) das 17h no Cine Humberto Mauro.

O filme? "E Deus criou a mulher", clássico francês com a maravilhosa Brigitte Bardot. A identificação foi completa. Quando vi o mocinho de vinte anos que queria se casar com a garotinha que era de todo mundo, lembrei-me da minha ingenuidade nessa idade. Os preconceitos da época, que nada mudaram até hoje, também me fizeram lembrar do mundo lá fora que, muitas vezes, ignoro.
Destaque para o breve diálogo que ela trava com uma educadora que tenta abordá-la na livraria em que trabalha:
- Nós podemos aceitá-la de volta como interna em nossa instituição. Para isso você só precisa de ir a um médico e trazer um atestado.
- Como assim?
- Um atestado de que você ainda é moça.
- Desculpe-me, mas eu não sabia que o amor agora tinha virado uma doença. Pode ficar despreocupada que você está vacinada.




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4.5.05

Agora eu entendo

Lembro-me de que, nos primeiros anos de faculdade, eu dividia uma opinião reprimida com minha colega Vivi. Ambos achávamos Beatles uma banda muito boa, mas não era esse deus que todo mundo falava.
Quando revelei o íntimo pensamento, quase fui imediatamente queimado no fogo da inquisição musical universitária. É difícil contrariar uma quase unanimidade, e você pode ser taxado como profano, prego e blasfemo, quando ousa dizer algo contrário.

Alguns anos depois, há poucos dias, senti a mesma indignação que eu via no rosto dos meus colegas beatlemaníacos. Não pude me conter, quando eu escutei a seguinte frase: "Não vejo nada demais no Hitchcock. Acho ele um cara normal." COMO ASSIM?????? Será que conhece a obra do grande mestre do cinema para fazer uma afirmação tão absurda?

Vejo agora, com mais clareza e maturidade, que a minha afirmação ofendeu os fãs da história do rock no mesmo nível que a frase errada que eu ouvi fere profundamente os admiradores dos clássicos do cinema. Tudo uma questão de gosto e conhecimento mais apurado de determinada arte.

Em tempo: continuo achando os Beatles uma banda normal.




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não linear