29.6.05

Penso, logo desisto

As drogas são como as religiões: querem passar a sensação de libertação, mas, na maioria das vezes, têm por função podar, tolher e dominar o ser humano.




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20.6.05

Sintonia

Tá bom. Alguns vão até me zoar, porque estou saindo com uma garota que gosta de música sertaneja. No entanto, eu passei dessa fase discriminatória, porque descobri que as afinidades estão muito acima disso.

Prova disso é quando eu saía com uma garota que era "do meio", curtia cinema e alguns outros programas mais refinados. Tudo ótimo: do que eu gostava ela gostava, tudo de que ela gostava, ela me aplicava e por aí ia. Até que, um dia, no meio do trânsito perdido, eu percebi que as coisas não eram bem assim.
Eu estava dirigindo e pedi para ela sintonizar uma rádio. Passando pelas várias, pára em uma que tocava a música Olhos Felizes, da Marina Lima, exatamente em seu refrão:

Gente bonita
é um tição
que atiça a vida
do coração


Quando ouvi, logo pedi: "deixe aí, que eu gosto dessa música". Ela passou batida, ainda à procura de outra estação. Insisti: "por que você não deixou lá?" "Fala sério, você gosta dessa música mesmo?" - retrucou, quase me condenando.

Depois do ocorrido, eu percebi que o mais importante não são apenas gostos em comum, mas algo mais importante que compartilhar músicas ou programas. Existe algo chamado sintonia que também determina o tanto que uma pessoa pode se dar bem com outra. Nesse caso, a falta de sintonia no dial coincidiu com a mesma ausência entre nós dois, o que eu ainda não havia percebido. Ela não tinha obrigação de saber que música eu gostava ou não, e foi onde houve o maior erro: ela achava que sabia tudo sobre mim e ainda agiu preconceituosamente, determinando o que se passava em minha cabeça.

Vejo que essa sintonia está muito mais presente em você se surpreender com o outro e assim se dar bem, do que esperar muito e achar que sabe todas as vontades e desejos da pessoa.

De qualquer forma, é claro que eu não vou acompanhar a mocinha em um show do César Menotti & Fabiano.




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18.6.05

Guiodaaaaaaai.... gaigaigaigaigaigaiaiaiaiaiaiai



Justa homenagem a Guiodai, ser excepcional e valioso.




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16.6.05

Sonhos / saber amanhecer

Tomar um cálice de vinho, logo antes de ir dormir, e um copo de suco de laranja, assim que acordar: simples e perfeito!




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13.6.05

Crônicas de condomínio (VII)

Mais um daqueles encontros no elevador. Desta vez com quatro vizinhas elegantíssimas em seus terninhos e trajes sociais. Parecem mulheres de negócios. Se bem que também parece que estudam, é o que dá para concluir quando vejo seus volumosos livros à mão.

Pouco posso deduzir. Sei que não são daqui, cada uma com um sotaque diferente, mas parecem reunidas na cidade para o mesmo propósito. Moram juntas e discutem quem vai dormir no sofá ou na sala. E eu na minha, fingindo que nada estou ouvindo e doido para participar da conversa. Apenas sorrio.

Todas elas são lindas, inclusive a mais velha com óculos de muderna. Fico imaginando: "quando eu crescer quero ser o tipo do cara que essas mulheres achariam interessante". Empino o corpo, escondo discretamente a sacola com as duas mexericas que levo de lanche e tento mostrar, também, com discrição, a agenda que tenho à mão, único objeto que pode me fazer parecer um rapaz sério. Depois de toda a encenação no trajeto de descida, eu mesmo me dou toque: "que bobagem, eu não quero me tornar um cara por quem essas mulheres finas se interessariam. Na verdade, eu já sou esse cara, só que elas ainda não perceberam..."




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7.6.05

Um fato e sua dúvida pertinente

O fato: apesar de ser a mesma quantidade, é bem mais gostoso comer duas metades de um pão do que comer um pão inteiro.
A dúvida: seria pelo prazer do "mais um"? A sensação de repetir porque estava bom?




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1.6.05

Ameaçador e desagradável

Passava eu pelo batido caminho da praça Raul Soares, quando uma das mendigas de lá me aborda:
- Moço, me arruma um trocado aí.
- Agora não, vou ficar te devendo - a resposta automática padrão surgiu, como um e-mail devolvido, sempre mantendo meu passo firme e apressado.
Ela já estava para trás, quando dirigiu a palavra a mim, quase gritando:
- Aqui, por que você passa aqui todo dia nesse horário?
Apesar do aperto que aquela pergunta me causou, continuei andando, fingindo não ser comigo mesmo.
Mesmo não deixando a bêbada pedinte perceber, aquilo me deixou extremamente incomodado. Lembrei-me do quanto sou vulnerável na rua, e de como minha vida é acompanhada diariamente por estranhos.
Sendo assim, como desde cedo aprendi a não dar papo para estranhos (lição que só se ratifica a cada dia), não cedi a essa clara ameaça. Por vários motivos:
1 - Não passo ali todo dia nesse horário. Ela já deve ter me visto várias vezes por lá, configurando motivo para que fizesse a ameaça, mas não é sempre que acontece.
2 - O que ela tem a ver com a minha vida? Por mais que pareça me conhecer, devo ignorar o fato completamente.
3 - Se eu desse corda, teria que dar um trocado para ela, sempre que passasse ali: o chantagista quer sempre mais.




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não linear