27.7.05

Vocês serão ótimos amigos

Duas amigas: uma tinha a simplicidade e o encanto que eu queria ter. A outra já demonstrava o desânimo e o pessimismo que, nem de longe, eu queria pra mim.
Apesar dessa diferença aparente, as duas se revelavam ótimas companheiras e tinham muito o que se completar.
A diferença de como encaravam a vida, independente da situação que tivessem passando, ficou clara na seguinte conversa:
- Eu adoraria ganhar flores de um homem. Acho isso tão bonito! - disse a primeira.
- Eu não acredito que você nunca ganhou, com tantos anos de namoros anteriores - intervim, impressionado.
- Eu já ganhei, e não achei lá essas coisas. - estragou a outra.

Meses depois, lembrando do papo, tratei de mandar entregar um ramalhete de rosas diversas para minha amiga encantada, com um cartão especialmente feito e envelopado em casa.
Curiosamente, também passados alguns meses, mas não necessariamente na mesma época, eu viria a receber um buquê de flores vindo, entretanto, da outra amiga, a desencantada.




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26.7.05

O mundo é uma cabeça

Presenciei uma sessão do 7º Festival Internacional de Curtas de BH que realmente valeu a pena. Valeu pelo documentário sobre o Mangue Bit, filme que o diretor levou nove anos para concluir, devido à morte de Chico Science.
Nunca me vi tanto dentro de um filme. Às vezes, eu até me sinto personagem de um curta metragem brasileiro, mas não tanto como neste, que incorporou completamente o meu espírito e o de uma geração que entrou na universidade na segunda metade da década de noventa.

Personagens que fizeram a trilha sonora de encontros, viagens, festas, bares e carnavais de uma época de descobertas. Quem estava presente percebeu a transição desses fortes movimentos para a pasmaceira dos anos 2000. Época em que havia shows do Stereolab, Man or Astroman, Superchunk, Tortoise + Tom Zé, entre outros em BH. Momentos em que o Paco Pigalle Bar vivia lotado de gente bonita e as calouradas da FaFiCH eram de graça e liberadas para quem quisesse ir.

Últimos resquícios de gente séria que investia em passar o dia inteiro na escola, e sabia que isso valia a pena. O mercado não era esse monstro aterrorizante e as pessoas eram boas o suficiente para se darem bem na vida sem se matar em estágios escravos e medíocres.

Parecia que eu estava naquela platéia mostrada no meio do show de CS&NZ em Recife, mesmo sem nunca ter ido lá. O filme tem muito do documentário nunca editado que nós gravamos numa calourada da UFMG em 2001, entrevistando Lúcio Maia, Jorge du Peixe e Davi às quatro da manhã, utilizando uma câmera S-VHS (e sem luz).
Destaque para o momento em que o próprio Chico horroriza quando o cineasta não sabe o que é o Festival de Lolapalooza, e chegar à conclusão de que "a cidade em que você vive é igual a qualquer outra cidade do mundo", numa percepção muito pessoal.

Percebi que, do mesmo modo que essas músicas existem até hoje como o que há de mais forte num movimento musical contemporâneo, eu também existo do mesmo jeito. Isto ninguém pode me tirar: sou jovem, e mais forte do que nunca para invocar tudo o que essa geração me acrescentou. Do novo tempo que já é, e não é mais o mesmo.




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19.7.05

Mão e contramão

A ida: viaduto de Santa Tereza
A volta: viaduto da Floresta

Ou seria o contrário?



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15.7.05

Momento Minduim

Sexta-feira, seis da tarde: hora do lusco-fusco, da ave-maria, da correria, da cervejinha depois do expediente. Dirijo-me para uma loja das Óticas do Povo com o propósito de fazer uns ajustes na armação dos meus óculos.
Lá chegando, sou prontamente atendido por uma garotinha ruiva, que deixa de ajudar a colega com o seu serviço para me dar atenção. Tento me explicar mais ou menos, e ela, tranqüilamente, pega meus óculos e começa a examiná-los. Logo vem um papo qualquer: "sabe que você parece o cara dos Engenheiros do Havaí?" Quando percebo, ela já está me contando sobre o show no Palácio das Artes, ao qual ela foi com o ex-namorado. Fez questão de ressaltar que era ex.
A essa altura, ela já tinha dobrado mil vezes a haste da armação, como se fosse de borracha. Riu da minha cara de assustado e apenas me tranqüilizou dizendo: "não tente fazer isso em casa." E continuava a dizer sobre o CD que ela quis comprar e não levou, sobre a camisa e as fotos que ela não tirou. Eu pouco falava, ficava apenas atento ao papo da garotinha ruiva e tentava não parecer tão bobo quanto eu estava no momento.

Ficava de costas para mim, mas sempre me fitava sorrindo através do espelho que estava à sua frente. Dobrava cuidadosamente a ponta dos óculos, pedia para eu colocar e experimentar. Não me dava por satisfeito. Os assuntos já giravam em torno de amenidades. E eu só queria perguntar a que horas ela sairia do trabalho, se iria fazer algo depois. Resignei-me naquela timidez de Charlie Brown, quando se apaixona pelo bilhetinho da garotinha ruiva. Superei um pouco e consegui perguntar seu nome... era só o início de um fim de semana que mudaria muito a minha vida.



* * *



Acho que há algo de errado nos meus óculos. Estariam fora de foco? Melhor levar lá para ver...




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12.7.05

Neologismos

Certas vezes chego para os meus amigos e digo: "Gente, estou gamadão naquela gatinha, desta vez estou apaixonado mesmo." Eles muitas vezes riem, quando não dizem: "Ah, conta outra, vai!"

Apesar de muitos rirem das minhas maneiras de amar, outro dia percebi um real entendimento por parte de minha amiga Marina Torres. Eu já discorria sobre a minha nova paixão, quando ela parou e falou, num surto de compreensão e sensibilidade: "Sabe de uma coisa, Deoroz: você é uma pessoa muito cativável." Acabava de inventar uma palavra e ainda justificava seu invento: "não tem outra descrição, é isso mesmo, a palavra que te define é só essa: cativável." Mal sabia ela que o relacionamento do qual eu falava todo entusiasmado terminaria naquela mesma noite.

Pena que nem todos sejam compreensivos e perceptivos como Marina, a ponto de ver a necessidade de criar um adjetivo que se case com a situação do amigo. Vejo cada vez mais que sou como Antoine Doinel, o anti-herói apaixonado dos filmes do Truffaut: um cara que se apaixona intensamente, e não se apaixona só por ela: fica apaixonado por toda a família dela, por todas as coisas que ela faz, pelo jeito de andar, de olhar e de fazer as coisas simples.

Tudo isso não quer dizer que eu vá gostar só de uma pessoa. Não há medidas para dizer a intensidade de qualquer amor. Qualquer valor ou julgamento não é nada bem-vindo. Quero apenas um pouco de compreensão, e talvez de credibilidade.




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não linear