O mundo é uma cabeça
Presenciei uma sessão do
7º Festival Internacional de Curtas de BH que realmente valeu a pena. Valeu pelo documentário sobre o Mangue Bit, filme que o diretor levou nove anos para concluir, devido à morte de Chico Science.
Nunca me vi tanto dentro de um filme. Às vezes, eu até me sinto personagem de um curta metragem brasileiro, mas não tanto como neste, que incorporou completamente o meu espírito e o de uma geração que entrou na universidade na segunda metade da década de noventa.
Personagens que fizeram a trilha sonora de encontros, viagens, festas, bares e carnavais de uma época de descobertas. Quem estava presente percebeu a transição desses fortes movimentos para a pasmaceira dos anos 2000. Época em que havia shows do Stereolab, Man or Astroman, Superchunk, Tortoise + Tom Zé, entre outros em BH. Momentos em que o Paco Pigalle Bar vivia lotado de gente bonita e as calouradas da FaFiCH eram de graça e liberadas para quem quisesse ir.
Últimos resquícios de gente séria que investia em passar o dia inteiro na escola, e sabia que isso valia a pena. O mercado não era esse monstro aterrorizante e as pessoas eram boas o suficiente para se darem bem na vida sem se matar em estágios escravos e medíocres.
Parecia que eu estava naquela platéia mostrada no meio do show de CS&NZ em Recife, mesmo sem nunca ter ido lá. O filme tem muito do documentário nunca editado que nós gravamos numa calourada da UFMG em 2001, entrevistando Lúcio Maia, Jorge du Peixe e Davi às quatro da manhã, utilizando uma câmera S-VHS (e sem luz).
Destaque para o momento em que o próprio Chico horroriza quando o cineasta não sabe o que é o Festival de Lolapalooza, e chegar à conclusão de que "a cidade em que você vive é igual a qualquer outra cidade do mundo", numa percepção muito pessoal.
Percebi que, do mesmo modo que essas músicas existem até hoje como o que há de mais forte num movimento musical contemporâneo, eu também existo do mesmo jeito. Isto ninguém pode me tirar: sou jovem, e mais forte do que nunca para invocar tudo o que essa geração me acrescentou. Do novo tempo que já é, e não é mais o mesmo.
posted by deorótico at 9:15 PM