15.9.05

Performance

Primeiro tempo de uma noite de terça-feira. Fui convidado para um vernissage. Até aí tudo bem, não fosse o lugar: por fora parecia, a princípio, um desses cafés onde as pessoas ficam esperando a hora de ir ao teatro ou qualquer coisa assim. Andando um pouco mais pelo tal café, descubro um anexo externo, que incluía um palco e um buffet de petiscos. Começaram as esquisitices... Perto da balança, o que havia? Um gordo tiozão do churrasco fritando o maior lingüição na chapa, dividindo espaço com um tablado em que iria tocar um pessoal mais velho, estilo jazz/mpb, acompanhado de uma mulher cantando bem suavemente.

Não entendi a mistura, era demais: exposição de arte, café, música ao vivo e tiozão do churrasco! Já era estranho, mas ainda tem mais: sentando à mesa do ambiente interno, pedimos ao cara que trabalhava lá, não necessariamente um garçom, uma cerveja. A resposta é certeira: tem que pegar ficha no caixa (!). Onde é o caixa? Seria aquele balcão à parte, estilo rústico, meio nada a ver com nada? Exato, não fosse mais uma peculiaridade do recinto: não havia ninguém para vender a ficha necessária para se tomar uma cerveja cara num lugar que, ainda por cima, vendia drinks de café e pão com lingüiça.

Momento alto: uma nova performance para completar as atrações do bar-café-churrascaria-galeria de arte. Digo nova porque eu já havia perdido a da dona da exposição. Desta vez era uma figura que eu não soube distinguir muito bem se era um homem, mulher ou menino. Os trajes que usava não definiam bem a situação do performático em questão. Quando todos se espremiam para ver a figura pendurar um coração de pano em sua tela, ao suave aroma de lingüiça com óleo de soja, encontro Giza, conhecida cantora do Cartola e do Cozinha de Minas, que me cumprimenta e diz: "legal esse lugar, eu não conhecia". Não é preciso nem dizer que concordei com ela, ainda meio na dúvida. Curiosa, vem tirar a dúvida comigo: queria descobrir se a figura da performance era macha ou fêmea. Expliquei que, apesar de não parecer, era um cara de mais de trinta anos, segundo informações de um amigo que já o conhecia.

Sem querer, descubro que estou numa mesa rodeado de artistas: uma companhia de teatro inteira! Dado certo momento, as meninas começam a gritar, um pouco histericamente: "Palito! Palito!" Um cara magro, de meia idade e sorridente responde com o dedo em riste, pedindo discrição. Descubro que o tal sujeito é uma espécie de identidade secreta do membro da dupla Jojô e Palito... Pronto: descobri um dos responsáveis por não me deixar dormir nos fins de semana de ressaca, com o caminhão de som anunciando teatro infantil pela manhã! Ô vontade de torcer o pescoço...

Depois de tantos fatos inusitados, a salvação seria tomar uma cerveja e comer um quibe no barzinho Brasil 41. Seria tranqüilo, não fossem mais fatos que transformariam as horas seguintes no segundo tempo de uma noite de terça-feira.




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5.9.05

Maria das tranças

Um cafuné bastava. Queria ter aquela sensação tão boa de quando era criança e sua mãe ficava trançando seus longos cabelos quando ia prepará-la para ir à escola. Lembrou-se que adora quando ficam mexendo nos seus cabelos. A sensação é a mesma de muitos anos atrás: sua mãe perguntava como fora o dia anterior na escola, se aprendera qualquer coisa nova, até mesmo uma brincadeira. Se não tinha o que conversar, simplesmente cantava de maneira bem suave.

Era tudo o que queria naquele momento: alguém para mexer em seus cabelos enquanto não se faz nada. Já não tem mais aqueles cabelos longos, nem sua mãe por perto para trançá-los. De qualquer forma, sabia de uma coisa: poderia ter aqueles momentos de volta, e para isso era preciso muito pouco...




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não linear