27.10.05

Tempestade

Depois de tudo, ficaram poças nas ruas, algumas árvores desfolhadas e umas outras com folhas, que pingavam quando sacudidas pelo vento.




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23.10.05

Crônicas de condomínio (VIII)

Eu sou do tipo de pessoa que não consegue fazer nada quando estão me olhando. Se eu estiver fazendo uma prova e o fiscal se atenta e me observar, travo na mesma hora. No trabalho, idem.

Pois numa certa tarde de domingo, daqueles bem vazios de avenida Amazonas abandonada, resolvo sair para almoçar. Anteriormente, eu tinha esvaziado meu carro de seus objetos típicos para mandá-lo ao lava-jato, cujo funcionário teve o cuidado de estacioná-lo na minha vaga, só que o fez de maneira diferente do que estou acostumado, de ré. Pois bem, no exato momento em que me dirijo à garagem do edifício Monte Carlo, lembro-me de voltar para pegar o som que tinha ficado para trás. Nessa meia volta encontro no elevador o tal vizinho que não vai com a minha cara. Não bastasse isso, o dito cujo estaciona o carro bem em frente ao meu. Para ficar livre da observação dele, tomo todo o cuidado antes de sair: ajeito as coisas dentro do carro, ligo o rádio, com toda a calma escolho a estação e nada do camarada sair. Parecia que estava me esperando de propósito.

Espero mais um pouco, ponho o cinto de segurança, confiro os retrovisores e o sujeito lá, empatando. Vendo que não adiantava mesmo e aquilo já tinha virado uma disputa de quase intermináveis cinco minutos, resolvo dar a partida... E nada do outro se mexer! Não tendo jeito, começo a manobrar para sair com o carro. Quem disse que eu consegui? Tive que dar o gostinho do cara ficar me olhando enquanto eu tentei sair por três vezes seguidas. Parecia que eu tinha desaprendido a dirigir completamente. O vizinho, que nunca tinha me visto ao volante, deve ter ficado todo sorridente, pensando: "esse cara não sabe nem dirigir". Que ódio! Entre as minhas tentativas, o outro, provavelmente já satisfeito com a minha humilhação, resolve sair, ainda se exibindo, do tipo "olha como se faz".

E não é que, assim que fiquei sozinho, consegui sair com toda a facilidade do mundo?




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18.10.05

Do Amor

Não esperava mais nada do fim de semana num domingo depois das onze da noite. Tudo o que era pra acontecer já tinha sido, fosse bom ou ruim.
Pois bem, hora de ir para casa depois de tanto tumulto, não fosse um acontecimento trágico no meio desse caminho. De repente, vários caras começam a se pegar no meio da rua. E eram tipos mal-encarados, daqueles que dá medo ousar olhar na sua direção.

A porrada come solta, envolvendo cada vez mais gente. Gente que chega descendo o morro correndo. Gente que foge também descendo a outra metade do morro e até mesmo pessoas que param o carro e entram no meio para bater ou apanhar.
Fico atordoado com toda aquela cena que, apesar de intensa, foi breve. O nó na garganta perdura e eu procuro o primeiro botequim para me refugiar. Peço um refrigerante e um cigarro, na falta de dinheiro para tomar uma cerveja. A minha cabeça ainda dá voltas, e a mesma sensação de engolir seco sempre me vem à boca quando ouço gritos vindos da rua.
Sentado no bar, sinto um bafo quente e nojento vindo da cozinha. Vejo casais, famílias... até chegar num grupo de três playboys na mesa ao lado. Discutiam, como todo mundo faz agora, se é melhor ou não vender armas para as pessoas, utilizando todos aqueles mesmos argumentos muito bem aprendidos através da televisão.

De saco cheio, só penso que isso não faz diferença nenhuma na minha vida. Se proibirem ou não, não sairei para comprar armas em nenhum lugar. Lembro-me, então, da cena de violência vista ainda há pouco. E se alguém no meio daquela bagunça estivesse armado? Será que algum estava? Fico triste, muito triste, e silencioso.




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não linear