30.1.06

Habitando os clichês

Às vezes eu me sinto personagem de um curta metragem, desses brasileiros surgidos dos anos noventa pra cá, bem urbanos mesmo. Um meio termo entre a vida de universitário e a de adulto solteiro.
O dia-a-dia que não muda, mas nunca é igual. Seria a seqüência: atravessando a rua entre os ônibus, ignorando qualquer regra de segurança, às vezes até embarcando em algum que o motorista amigavelmente abre a porta, como se fosse um bonde que a gente pega andando. Ao desembarcar no centro da cidade, entre as barracas de feira e camelôs, rola uma música estilo Mundo Livre S/A como trilha sonora.
Chego no igual e repetitivo trabalho, que mais parece um bico, com as mesmas pessoas mais se divertindo que trabalhando. O papo furando rolando e se repetindo entre um atendimento e outro. O olho no relógio para ver a hora de ir embora: "dá sete, mas não dá seis", repete sempre um dos mais bem humorados colegas.

A minha casa é daquelas em que o povo que é de casa já vem entrando sem pedir licença, abre a geladeira, pega uma cerveja, dá um pouco pro cachorro e ainda reclama da bagunça. Eu falei cerveja pro cachorro? Engraçado que até semana passada eu não tinha cachorro em casa... quem será que trouxe?
Chamam pra sair, boteco na maioria das vezes: à noite uma cervejinha de lei, e a mesa se dividindo em duas: os que prestam atenção no papo e os atentos às mesas em volta. A grande chance da noite se esticar, de parar na casa de uma galera desconhecida, de terminar fumando um baseado e descobrindo CDs diferentes. Depois de tanto conversar com os inéditos amigos, surgem os conhecidos em comum, e a lembrança das mesmas festas já freqüentadas. Uma putaria qualquer (ou não) depois e aquele negócio de voltar para casa de manhã, de se descobrir o ponto de um ônibus que vá para perto de casa, ou pelo menos para o centro da cidade. Aquela boa sensação de que amanheceu sem a noite ter acabado, com um sambinha ou qualquer outro grude tocando na cabeça, quase cantando sozinho...



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28.1.06

Deixe ver os olhos

E me lembrei que a gente sempre ouvia nos sermões do pai que os olhos são a candeia do corpo, e que se eles eram bons é porque o corpo tinha luz, e se os olhos não eram limpos é que eles revelavam um corpo tenebroso...

(Raduan Nassar, em Lavoura Arcaica)



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18.1.06

O ínterim

Aconteceu na esquina de Contorno com São Paulo, um lugar mais conhecido como Estadual Central. No braço da São Paulo, o menos movimentado, parou aquele jovem casal dentro de um Gol, e não teve quem não se contagiasse com a sua alegria. Tomavam uma latinha de Skol e cantavam Aquarela Brasileira, clássico samba enredo de Silas de Oliveira. Através da janela aberta do carro, ambos tentavam acompanhar a letra da música que pareciam ter acabado de descobrir. Entre os versos atropelados, gritavam "que delícia", ou então "isso é muito bom", como se fizessem questão de compartilhar o achado musical com qualquer indivíduo que por perto passasse. Espontaneamente, tornaram eterno, como todo bom samba, aquele fatal tempinho entre trinta segundos e um minuto que dura um sinal vermelho.




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não linear