O amor é filme
Aconteceu na véspera de um carnaval qualquer. Tinha rodado o centro da cidade o dia inteiro e estava cheio de sacolas. Eram quase seis da tarde e pensou em passar em casa para deixar as coisas. Quando estava quase embarcando no metrô rumo à Tijuca, seu amigo liga no celular e diz: "nós vamos praí agora, nem precisa vir pra cá, senão não dá tempo de pegar o bloco."
Economizou seu bilhete e foi pegar o bondinho de Santa Tereza para a concentração do bloco das Carmelitas. Chegando lá, deu de cara com a enorme fila de freiras, padres, bailarinas e toda a sorte de pessoas fantasiadas... e ele lá: cheio de sacolas e tranqueiras nas mãos, quando o que mais queria era apenas uma cerveja gelada.
Depois de especulações se haveria um bonde extra ou se aquele seria o último da noite, eis que consegue embarcar. Gente dependurada nos estribos laterais e até na traseira, fora a galera que pula no bonde andando.
No meio da subida, uma enorme e larga Escort SW ocupa a calçada inteira e uma parte da rua onde fica o trilho do bonde, caracterizando a mais completa falta de respeito. O motorneiro avisa: "todos os homens aí ajudem a tirar esse carro do caminho!" A metade dos passageiros que ficou desce para empurrar a perua para o meio da rua e ele lá, sem saber o que fazer com toda aquela sacolada. A garotinha mais meiguinha e lindinha do bonde percebe a falta de jeito do rapaz e se oferece para tomar conta das coisas dele enquanto estivesse ajudando. Após tal abordagem não tinha como não ir lá e ser mais um dos valentões salvadores do bonde e do carnaval também.
Muito serviço braçal e um carro branco abandonado no meio da rua depois, chegam ao Largo do Curvelo, onde o bloco já corria solto. Como o moço era um tanto devagar, a mocinha que o ajudou puxa um papo qualquer, como se já se conhecessem. Ela, com seus cabelos curtos e vermelhos, mais um delicioso sotaque gaúcho e ele já percebendo tudo. Começa a ficar mais esperto. Pede num bar para que guardem suas compras e promete ser freguês do estabelecimento em troca. O papo dá certo e eles sobem juntos atrás das Carmelitas. A esta altura, ele não tinha encontrado seu amigo, as amigas cariocas dela já um pouco afastadas e os dois haviam se aproximado.
O clima de romance de carnaval solto, um comprando cerveja para o outro e a vontade de não ir embora. Todo aquele cenário que parecia de filme ou até mesmo de novela das seis: a gaúcha e o mineiro que se conhecem e se apaixonam num carnaval do Rio, exatamente no bondinho de Santa Tereza. O bloco se dissolvendo, o delírio secando, tudo se acabando. Trocam telefones, mas não querem se soltar. Descobrem que vão para o mesmo bairro e que terão uma sobrevida no ônibus, onde trocam juras de carnaval, de passarem os quatro dias juntos, como se isso fosse possível, como se não fosse chover em nenhum dos dias...
posted by deorótico at 8:49 PM