27.3.06

A TV não mostra

Clássico das multidões, Cruzeiro x Atlético, 49 mil pagantes, estava a faixa lá no Mineirão, maior que as de muitas torcidas:

O POLICIAL QUE PROTEGE VOCÊ
NÃO TEM O RESPEITO DO GOVERNO DE MINAS.
PERICULOSIDADE JÁ!
Movimento mineiro pela segurança pública




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22.3.06

O amor é filme

Aconteceu na véspera de um carnaval qualquer. Tinha rodado o centro da cidade o dia inteiro e estava cheio de sacolas. Eram quase seis da tarde e pensou em passar em casa para deixar as coisas. Quando estava quase embarcando no metrô rumo à Tijuca, seu amigo liga no celular e diz: "nós vamos praí agora, nem precisa vir pra cá, senão não dá tempo de pegar o bloco."

Economizou seu bilhete e foi pegar o bondinho de Santa Tereza para a concentração do bloco das Carmelitas. Chegando lá, deu de cara com a enorme fila de freiras, padres, bailarinas e toda a sorte de pessoas fantasiadas... e ele lá: cheio de sacolas e tranqueiras nas mãos, quando o que mais queria era apenas uma cerveja gelada.

Depois de especulações se haveria um bonde extra ou se aquele seria o último da noite, eis que consegue embarcar. Gente dependurada nos estribos laterais e até na traseira, fora a galera que pula no bonde andando.

No meio da subida, uma enorme e larga Escort SW ocupa a calçada inteira e uma parte da rua onde fica o trilho do bonde, caracterizando a mais completa falta de respeito. O motorneiro avisa: "todos os homens aí ajudem a tirar esse carro do caminho!" A metade dos passageiros que ficou desce para empurrar a perua para o meio da rua e ele lá, sem saber o que fazer com toda aquela sacolada. A garotinha mais meiguinha e lindinha do bonde percebe a falta de jeito do rapaz e se oferece para tomar conta das coisas dele enquanto estivesse ajudando. Após tal abordagem não tinha como não ir lá e ser mais um dos valentões salvadores do bonde e do carnaval também.

Muito serviço braçal e um carro branco abandonado no meio da rua depois, chegam ao Largo do Curvelo, onde o bloco já corria solto. Como o moço era um tanto devagar, a mocinha que o ajudou puxa um papo qualquer, como se já se conhecessem. Ela, com seus cabelos curtos e vermelhos, mais um delicioso sotaque gaúcho e ele já percebendo tudo. Começa a ficar mais esperto. Pede num bar para que guardem suas compras e promete ser freguês do estabelecimento em troca. O papo dá certo e eles sobem juntos atrás das Carmelitas. A esta altura, ele não tinha encontrado seu amigo, as amigas cariocas dela já um pouco afastadas e os dois haviam se aproximado.

O clima de romance de carnaval solto, um comprando cerveja para o outro e a vontade de não ir embora. Todo aquele cenário que parecia de filme ou até mesmo de novela das seis: a gaúcha e o mineiro que se conhecem e se apaixonam num carnaval do Rio, exatamente no bondinho de Santa Tereza. O bloco se dissolvendo, o delírio secando, tudo se acabando. Trocam telefones, mas não querem se soltar. Descobrem que vão para o mesmo bairro e que terão uma sobrevida no ônibus, onde trocam juras de carnaval, de passarem os quatro dias juntos, como se isso fosse possível, como se não fosse chover em nenhum dos dias...




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15.3.06

Do tempo do Bar 43

Isso é da época em que seu Olímpio era vivo e quem viu dá testemunho. Era um mundo de mesas coloridas que se estendiam até debaixo da histórica escada rolante do conjunto Maletta. Todo aquele complexo de bares podres hoje não passa de passado para quem viveu ou de lenda para quem não conheceu.

Ali, encabeçados pela Cantina do Lucas, estavam os bares podres mais bem freqüentados da cidade. Sem exceção, eram compostos por banheiros cabulosos e cozinhas cujos tetos tinham estalactites formadas por uma massa heterogênea e consistente de poeira, gordura e teias de aranha.
Quem passasse por ali sozinho fatalmente encontraria conhecidos em alguma mesa, fora as figuras folclóricas, como aquele velho de um olho furado que sempre chegava com uma carteira de cigarros vazia, alegando que o dele tinha acabado, num famoso golpe para conseguir o se-me-dão. Caldo nas canecas, PFs com cara boa e procedência duvidosa e cervejas de marcas variadas compunham o cardápio de quase todos eles.

A aglomeração de pessoas após um grande evento do FIT, ou de qualquer show na praça da estação era evidente. Houve até uma tentativa em 98 de se fazer uma intervenção do grupo teatral Lúmen no espaço da galeria, polemicamente vetada pelo condomínio numa sexta à noite de FIT

Hoje encontra-se lá apenas a aura decadente do que era há até cinco anos referência da boemia intelectual de Belo Horizonte. Como se fosse um marco histórico ainda está lá no canto, na parede ao lado da Leitura, a placa com a bandeira do Brasil e os dizeres "República do Rango."
Os intelectuais não mais se concentram, até por não ter espaço onde fazê-lo por lá. Acham-se as pessoas no estilo os "mesmos de sempre", fora alguns hippies e doidões remanescentes. O tétrico Bar 43 se tornou uma lan house, assim como os cômodos dos demais se converteram nos comércios mais diversos.

De atração resta a escada rolante, primeira da cidade que, para informação de muitos que nunca foram lá durante o dia, funciona.




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não linear